“Delta” é um filme de 2008, dirigido por Kornél Mundruczó, também argumentista e actor Húngaro, que nos apresenta uma forma muito própria, ao mesmo tempo especial de fazer cinema. Um filme candidato à Palma de Ouro do último Festival de Cannes, tendo arrebatado no mesmo o Prémio da Crítica. Todavia, não é a presença num dos mais importantes, senão o mais importante Festival de Cinema do mundo que o transforma num filme bem aceite pela corrente sociedade. Arriscar-me-ia mesmo a afirmar que “Delta” corre o risco de levar o espectador a assistir-lhe com um ligeiro sentido de obrigação, alguns minutos após o início da sua projecção. Neste filme, assistimos ao retrato da vivência de uma família, embora um pouco desagregada, numa bela e tranquila aldeia isolada do mundo, retrato este ao longo do qual se vai revelando a linha da história, tendo como primeiro ponto de importância a chegada de Mihail (Félix Lajkó), que retorna à sua aldeia após um passado que não nos é revelado. Na sua chegada, depara-se então com uma mãe submissa (Lili Monori), uma meia irmã um tanto ao quanto alienada (Orsolya Tóth) e um padrasto tirano (Sándor Gáspár) que lhe serão complementares na construção da acção e que nos dão acesso a uma possível percepção do rumo que o filme tomará. Na história, é ainda de fazer referência a dois curiosos elementos simbólicos, sendo eles a construção de uma casa no rio que nos remete para uma ligação entre lugares e a relação da jovem com uma tartaruga, talvez pela semelhança de formas de sobrevivência.
É de notar que aqui, todo o trabalho tido relativamente à encenação, ao enquadramento, à fotografia, entre outros factores, representa uma cuidada construção que esconde, no entanto, um espaço vazio. Entenda-se, neste filme, por espaço vazio a forma ténue de como se trata a história, a sensação de vazio na construção da caracterização dos personagens e até mesmo o tempo que leva no tratamento das acções que poderia ser, por opção, perfeitamente abreviado. Não pretendo, contudo, afirmar estas mesmas razões como elementos que reforçam o lado fraco ou menos bom desta obra; creio sim que sejam opções perfeitamente respeitáveis que não transforma, de todo, “Delta” num mau filme.
Saliente-se também que este filme não apresenta, ao nível da narrativa, a estrutura que é tida como comum na generalidade das obras cinematográficas. Para isso, necessitaríamos que o mesmo nos transportasse primeiramente num momento de preparação da acção, com destino ao alcance daquilo que designamos por “clímax”, isto é, o expoente máximo da linha narrativa ou aquilo a que convencionalmente chamamos de “pico” do filme. “Delta” não nos oferece totalmente essa viagem, optando antes por revelar dois momentos imprescindíveis na construção do enredo, que não se demonstra ainda assim de grande complexidade; e fá-lo, curiosamente, sem lhes conceder toda a tensão que, à partida, lhes seria merecida. Refiro-me pois, ao momento da violação da jovem rapariga por parte do pai, que nos é mostrado em seguimento de um intrigante travelling em plano geral, deixando para trás uma sequência de planos médios ou até mais aproximados e que afirma, com essa radical mudança, a forma propositada de como o realizador decide, originalmente, retratar um acontecimento tão perturbante quanto este, afastando o espectador da cena; enquanto que muito provavelmente este acontecimento seria, pelas mentes vulgares, tratado através de uma imensidão enjoativa de inserts, close-ups, com planos de curtíssima duração, de modo a que conferissem à cena um maior dinamismo. Está, por isso, comprovado que uma acção para que adquira esse importante, inquietante ou até perturbador estatuto, não necessita de apresentar um tratamento dinâmico; esse estatuto pode ser-lhe igualmente conferido se a decidirmos tratar de forma irreverente, não implicando que a cena perca em qualidade e muito menos na relação/ligação que estabelece com o espectador.
Semelhante opção pode ser verificada na forma como Mundruczó decide tratar o segundo momento alto da história, o momento do incesto que nos é revelado através de um beijo entre os meios-irmãos, um beijo ou um falso beijo em que o acto em si não nos é mostrado, tendo decidido o realizador oferecer-nos antes um plano aproximado dos pés dos protagonistas, que nos leva a deduzir que o acto se consumou.
“Delta” é portanto um filme no qual factores como a longa duração dos planos, a persistência das expressões faciais, a limpidez dos cenários, a forma morosa de como uma tão simples história nos é contada e esse quase esconder ou afastar de factos que, tratados de maneira diferente, trariam para o filme uma maior força, conseguem proporcionar ao espectador, não uma fácil, mas uma agradável digestão das suas partes. Encontramo-nos, então, perante um filme que pela monotonia e regularidade da narrativa nos transmite um desmesurado sentimento de leveza e serenidade. Um filme em que, do meu ponto de vista, os valores artísticos superam os objectivos comerciais. “Delta” é, não mais não menos, que uma caminhada em direcção à glorificação.
Com tudo isto, quem se atreverá a penalizá-lo pelo aparecimento, quase imperceptível, do microfone em cena ou pela eventual sonolência que a longa duração dos planos poderá provocar?
segunda-feira, 2 de março de 2009
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